A Cannaparade está de regresso às ruas da capital. No sábado, 30 de maio de 2026, uma coligação de associações apela a que as pessoas se reúnam na République às 14 horas para se juntarem à Nation através do Boulevard Voltaire. O objetivo declarado: pedir a legalização da cannabis em França e denunciar as consequências humanas de uma política repressiva considerada esgotada.
Por detrás deste apelo estão organizações com perfis variados: Act Up-Paris, ASUD (Auto-apoio aos toxicodependentes), Cannabis Sans Frontières, o CIRC, o Parti du Cannabis en France, a Fédération Addiction, a Ligue des droits de l’Homme e a NORML France. Uma rara frente unida, que reúne associações de defesa dos utilizadores, organizações de saúde pública e movimentos de defesa das liberdades civis.
“Vidas danificadas”: o custo humano da proibição em foco
O texto divulgado pelos organizadores não poupa palavras sobre os efeitos da atual repressão. Aponta as multas de 200 euros, potencialmente aumentadas para 500 euros, que atingem centenas de milhares de pessoas todos os anos por actos “sem violência, sem vítimas, sem perturbação da ordem pública”.
O documento sublinha as consequências sociais destas sanções: perda de emprego, longos registos criminais e o aumento da vulnerabilidade de grupos já vulneráveis.
“São sempre as mesmas pessoas que são atingidas: os mais pobres, os mais jovens, aqueles cuja precariedade os torna um alvo fácil”, afirma o texto. É uma linha de argumentação que ecoa o trabalho de muitos pesquisadores de criminologia e saúde pública sobre os efeitos diferenciados da guerra às drogas dependendo da origem social.
Mercado negro e testes de saliva: os outros alvos dos manifestantes
A coligação aborda também o que considera ser uma contradição fundamental: França é um dos países europeus com maior consumo de canábis e, simultaneamente, um dos poucos a manter a proibição total. Segundo os organizadores, esta situação alimenta um mercado negro florescente, expõe os consumidores a produtos sem controlo nem rastreabilidade e instala permanentemente a violência em certos bairros.
Uma outra queixa é a fiabilidade dos testes de saliva utilizados durante os controlos na estrada. O folheto recorda que estes dispositivos detectam consumos passados e não a impregnação ativa no momento do controlo, uma crítica técnica que é feita há vários anos por juristas e associações de segurança rodoviária. Um condutor que tenha estado sóbrio durante vários dias poderia, por conseguinte, dar positivo num teste e ver a sua carta de condução suspensa.
Uma mobilização num contexto político no limbo
A Cannaparade 2026 surge num contexto legislativo ainda bloqueado do lado francês, enquanto vários países europeus, incluindo a Alemanha e Malta, iniciaram reformas significativas nos seus regulamentos sobre a canábis. Em França, os debates parlamentares sobre uma possível legalização ou regulamentação estão a ter dificuldades em chegar a uma conclusão devido à falta de consenso político.
Para os organizadores, a rua continua a ser a principal alavanca. O apelo à manifestação, sob o lema “Lève-toi, Cannamarade” (“Levanta-te, Cannamarade“), tem como objetivo fazer do dia 30 de maio uma demonstração de força visível, capaz de ter impacto num debate público que, na sua opinião, continua a ignorar demasiadas vezes a realidade vivida pelos consumidores comuns.
A Cannaparade realiza-se no sábado, 30 de maio de 2026, em Paris, com partida às 14 horas da Place de la République e chegada à Place de la Nation.