Cannabis medicinal

A Alemanha vai acabar com o reembolso das flores de canábis medicinal?

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O Governo alemão está a ser alvo de críticas generalizadas depois de ter proposto retirar as flores de canábis medicinal da lista de tratamentos reembolsados pelos seguros de saúde.

A medida, incluída no projeto de lei para estabilizar as taxas de contribuição obrigatória do seguro de saúde, limitaria os tratamentos reembolsados com cannabis a extractos padronizados e a medicamentos que contenham dronabinol ou nabilona (ambos THC sintético).

De acordo com o projeto de lei, esta reforma deverá gerar poupanças substanciais para o sistema público de saúde alemão, prevendo-se que os cortes nas despesas passem de 130 milhões de euros em 2027 para 180 milhões de euros em 2030.

As autoridades alemãs argumentam que as flores de canábis apresentam um maior risco de dependência devido ao seu rápido início de ação. A proposta sublinha igualmente a preocupação com a variabilidade dos produtos naturais de canábis, cujo teor de canabinóides pode variar em função das condições de cultivo e de armazenamento. Por conseguinte, as autoridades consideram que os extractos e as fórmulas farmacêuticas oferecem uma normalização e uma consistência terapêutica mais fiáveis.

“Num sistema de saúde financiado com base na solidariedade, é fundamentalmente necessário que os serviços pagos pela comunidade segurada se baseiem em provas suficientes e garantam uma qualidade terapêutica verificável”, afirmou a Comissão de Finanças da Saúde.

A indústria da canábis e as associações de doentes reagem

A proposta suscitou a forte oposição de várias organizações que representam o sector alemão da canábis medicinal, incluindo a Associação Alemã da Indústria da Canábis (BvCW), associações de doentes, farmácias e empresas farmacêuticas especializadas em canabinóides.

Numa declaração conjunta emitida após a aprovação do projeto de lei pelo Governo alemão, estas organizações alertaram para o facto de a reforma poder ter um impacto negativo nos doentes vulneráveis que sofrem de doenças crónicas ou que recebem cuidados paliativos.

“O novo regulamento previsto, segundo o qual apenas os extractos de cannabis, os produtos medicinais acabados, o dronabinol e a nabilona devem continuar a ser reembolsados pelo seguro de saúde obrigatório, é considerado pelas associações como arriscado em termos de política de saúde, juridicamente problemático e economicamente inviável”, escreveu o BvCW.

Os representantes da indústria também contestam os cálculos financeiros do governo. Na sua opinião, a substituição das flores por extractos ou canabinóides sintéticos poderia, em alguns casos, aumentar os custos do tratamento.

“Com base no teor real de THC, no qual as prescrições são geralmente padronizadas, as flores de cannabis são o medicamento de cannabis mais rentável. A mesma quantidade de THC prescrita custa, portanto, mais às seguradoras de saúde sob a forma de extractos ou preparações de dronabinol puro do que sob a forma de flores de cannabis”, afirmou Georg Wurth, da Associação Alemã de Cânhamo.

Vários intervenientes alertaram também para o facto de a abolição do reembolso poder conduzir alguns doentes ao mercado ilícito, caso deixem de poder pagar o tratamento.

Pacientes com esclerose múltipla particularmente afectados

A Sociedade Alemã de Esclerose Múltipla (DMSG) foi uma das maiores críticas à reforma. A organização advertiu que as pessoas com esclerose múltipla poderiam ser desproporcionalmente afectadas se as flores de canábis perdessem o seu estatuto de medicamento reembolsável.

De acordo com dados do Instituto Federal Alemão de Medicamentos e Dispositivos Médicos (BfArM), cerca de 12,5% dos pacientes tratados com flores de canábis medicinal na Alemanha sofrem de esclerose múltipla.

O DMSG observou que muitos destes doentes tinham utilizado anteriormente medicamentos aprovados à base de canabinóides, como o Sativex, sem resultados suficientes ou com efeitos secundários intoleráveis.

“As flores de canábis provaram ser significativamente mais eficazes, mais bem toleradas e conduziram a uma melhor qualidade de vida”, afirmou a organização.

Os defensores dos doentes e os médicos insistem que a canábis inalada continua a ser clinicamente necessária para determinadas doenças, devido ao seu rápido início de ação, nomeadamente no caso de dores agudas ou episódios súbitos de espasticidade.

“Para uma percentagem significativa de doentes, as flores de canábis são medicamente insubstituíveis por medicação oral. Em especial nos casos de dor aguda ou de espasticidade, a rapidez de ação é crucial. Suprimi-las iria piorar a gestão sem qualquer benefício médico adicional”, disse o Dr. Franjo Grotenhermen, presidente do grupo de trabalho Cannabis as Medicine (ACM).

Um debate sobre o futuro do modelo alemão de canábis medicinal

A Alemanha é frequentemente citada como um dos sistemas de canábis medicinal mais avançados da Europa, uma vez que o seguro de saúde obrigatório pode reembolsar tratamentos à base de canábis prescritos a pacientes gravemente doentes sob condições rigorosas.

Os críticos da reforma proposta argumentam que retirar as flores do sistema de reembolso prejudicaria um modelo que se tornou uma referência internacional. Defendem também que os médicos devem manter a possibilidade de determinar qual a forma de canábis mais adequada para cada paciente.

para muitos pacientes gravemente doentes, as flores de canábis não são um “produto de moda”, mas o tratamento que lhes permite recuperar alguma qualidade de vida”, afirmou Daniela Joachim, da Associação Alemã de Doentes de Canábis (BDCan).

O projeto de lei ainda está em discussão política, mas a oposição das associações de doentes, dos profissionais de saúde e da indústria alemã de canábis está a aumentar à medida que o debate se intensifica.

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