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Eswatini dá um passo no sentido da legalização da canábis medicinal

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Cannabis medicinal em Eswatini
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O país africano de Eswatini introduziu legislação para legalizar a canábis medicinal. Se for aprovada, a legislação representará uma mudança significativa na abordagem do país à canábis, anulando uma lei centenária que atualmente proíbe a canábis.

Contexto histórico e legislativo

O Eswatini, anteriormente conhecido como Suazilândia, é uma nação sem litoral na África Austral. A atual proibição da cannabis no Essuatíni tem origem numa lei estabelecida pelos britânicos em 1922, conhecida como Opium and Habit-forming Drugs Act. Esta lei manteve-se em vigor muito depois de Eswatini se ter tornado independente do controlo britânico em 1968 e mesmo depois de o país ter mudado o seu nome de Suazilândia para Eswatini em 2018.

A nova legislação sobre cannabis medicinal introduzida pelo rei Mswati III e pelo governo de Eswatini é vista como um passo crucial para a modernização do quadro jurídico do país e para a resolução dos problemas económicos e sociais colocados pelo mercado ilegal de cannabis. De acordo com o porta-voz do governo, Alpheous Nxumalo, a legislação tem como objetivo reduzir as vendas ilegais, garantir as receitas fiscais e permitir que os agricultores locais que estiveram envolvidos no comércio de cannabis ganhem a vida.

Implicações económicas e sociais

Os potenciais benefícios económicos da legalização da cannabis medicinal em Eswatini são significativos. Conforme observado pelo CEO da Business Eswatini, E. Nathi Dlamini, o país precisa de acompanhar a indústria global de canábis medicinal para atrair investimento e criar empregos muito necessários. A legalização também poderia ajudar a diversificar a economia, que há muito se debate com altas taxas de desemprego e desenvolvimento industrial limitado.

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Uma das principais motivações da legislação é formalizar e regulamentar a indústria da canábis, a fim de reduzir o mercado negro que atualmente domina o sector. Este sentimento é partilhado pelo comerciante Maqhawe Tsabedze, que tem sustentado a sua família através da venda ilegal de canábis. A legalização não só legitimaria o seu negócio, como também proporcionaria proteção legal contra rusgas policiais e confisco de produtos, oferecendo-lhe um meio de subsistência mais estável e seguro.

Benefícios para a saúde e para a comunidade

Para além dos benefícios económicos, a legalização da canábis medicinal poderá ter profundos benefícios para a saúde da população de Eswatini. O Dr. Thys Louren, médico da Occupational Health Eswatini, defende a legalização, destacando o seu potencial para transformar o panorama dos cuidados de saúde no país. Segundo ele, a legalização proporcionaria uma solução holística para os pacientes, melhorando a saúde e a sustentabilidade da comunidade como um todo.

Eswatini tem uma elevada prevalência de VIH/SIDA e muitos residentes, em especial mulheres idosas, recorreram ao cultivo de canábis, conhecida localmente como “Swazi Gold”, para sustentar as suas famílias e crianças órfãs. O The Guardian noticiou em 2021 que estas mulheres estavam a recorrer à agricultura ilegal devido à pobreza extrema e à falta de apoio governamental. A legalização poderia proporcionar-lhes uma forma legal de ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, oferecer benefícios terapêuticos para gerir os sintomas do VIH/SIDA.

Processo legislativo e desafios

A proposta de legislação sobre a canábis medicinal tem ainda vários obstáculos a ultrapassar antes de se tornar lei. É necessária uma votação de três quartos tanto na Câmara dos Deputados como no Senado. As tentativas anteriores de aprovar legislação semelhante falharam. Em 2020, uma versão do projeto de lei foi apresentada pelo Departamento de Saúde de Eswatini, mas não avançou. O projeto de lei ressurgiu em maio de 2023, mas subsistem preocupações quanto à sua implementação e ao potencial domínio do mercado por empresas ricas.

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A Associação de Canábis do Essuatíni (ESA) manifestou a sua preocupação com o quadro regulamentar proposto, que estabeleceria uma Autoridade Reguladora dos Medicamentos para supervisionar a importação, exportação e venda por grosso de produtos de canábis. O presidente da ESA, Saladin Magagula, argumentou que a estrutura poderia dar origem a conflitos de interesse, com a autoridade provavelmente a emitir licenças para si própria enquanto regula outros actores.

Contexto regional e global

O movimento de Eswatini no sentido de legalizar a canábis medicinal faz parte de uma tendência mais ampla em toda a África. Em 2018, o Zimbabué legalizou a canábis medicinal e, em maio de 2024, a África do Sul promulgou a legalização da canábis para uso pessoal, sem legalizar a sua venda.

A posição única do país no panorama regional da canábis foi também vislumbrada num documentário de 2013 de Strain Hunters, que explorou a indústria local de canábis e as características genéticas da Swazi Gold. À medida que mais países africanos adoptam a canábis, a decisão de Eswatini pode abrir caminho para uma maior integração no mercado global da canábis.