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Big Sur Holy Weed: quando a legalização ameaça os mitos da canábis californiana

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Erva Santa de Big Sur
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Estará a Califórnia em risco de perder o que a tornou uma lenda canábica?

Numa longa investigação publicada pelo SFGATE, o jornalista Lester Black vai em busca de uma variedade mítica: a erva sagrada de Big Sur. Uma erva que nasceu, segundo a lenda, nos anos 60 nas falésias selvagens de Big Sur, possivelmente cultivada por um monge recluso chamado Perry. Uma história fascinante que mistura surfistas mexicanos, hippies místicos, sinsemilla revolucionária e que fala tanto da história da canábis como da contracultura americana.

Mas, no decurso da sua investigação, o mito desfaz-se. E surge uma questão mais profunda: o que resta das variedades históricas numa época de legalização?

Uma planta nascida do caos dos anos 60

Big Sur não é um território qualquer. Esta faixa de costa acidentada a sul de Monterey há muito que atrai forasteiros, escritores e buscadores espirituais. Nos anos 60, enquanto São Francisco transbordava de utopias psicadélicas, as comunidades hippies instalaram-se nestas montanhas escarpadas.

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Ao mesmo tempo, a administração de Richard Nixon lançou a “Guerra às Drogas”. A Operação Interceção, em 1969, bloqueou temporariamente a fronteira mexicana e tornou mais arriscada a importação de canábis. Resultado: a produção local explode.

Foram cruzadas sementes do México, do Afeganistão e da Tailândia. Os cultivadores experimentaram a técnica da sinsemilla, a eliminação das plantas masculinas para produzir flores mais resinosas e sem sementes. Big Sur tornou-se então um dos laboratórios ao ar livre da canábis moderna.

A erva sagrada de Big Sur terá nascido neste contexto: uma mistura híbrida, energizante, quase espiritual, segundo alguns relatos.

O problema: a variedade pode não existir

Lester Black descobriu rapidamente uma grande dificuldade: não havia provas científicas que sustentassem a existência de uma linhagem estável chamada “Big Sur Holy Weed”. O criador Mojave Richmond, que nasceu em Big Sur numa família de agricultores, explica que nos anos 60 era praticamente impossível estabilizar geneticamente uma variedade. Os hippies permitiam que as suas plantas polinizassem livremente. Cada geração produzia variações.

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Por outras palavras, a Holy Weed nunca teria sido uma variedade de canábis no sentido botânico estrito, mas sim uma “classe” de canábis cultivada num determinado local, numa determinada época.

Monge Perry? As instituições religiosas locais, incluindo a Ermida Nova de Camaldoli, negam qualquer envolvimento. Diz-se que a história evoluiu ao longo das décadas, alimentada pelo boca-a-boca e pela nostalgia.

A legalização, uma ameaça inesperada

É aqui que a investigação assume uma dimensão mais política. Desde a legalização na Califórnia em 2016, os pequenos produtores históricos têm lutado para sobreviver. As licenças são caras. Os padrões são elevados. Os impostos são elevados. Muitos estão a fechar.

Kodiak Greenwood, apresentado como o último cultivador legal em Big Sur, perdeu a sua licença pouco depois da entrevista com o jornalista. Se já ninguém cultiva legalmente em Big Sur, o que é feito da identidade local? É um paradoxo cruel: a proibição destruiu os arquivos (ninguém tomava notas para não ir para a prisão), mas a legalização pode destruir os terroirs.

A Califórnia está a trabalhar num sistema de denominações geográficas, inspirado no modelo vitivinícola. A ideia: proteger regiões como Humboldt County ou Big Sur, da mesma forma que Champagne protege o seu nome.

O problema é que a canábis continua a ser ilegal a nível federal nos Estados Unidos, o que torna difícil a criação de um sistema de certificação científica comparável ao do vinho ou da carne de vaca wagyu. Sem normas genéticas reconhecidas, qualquer empresa pode cultivar uma planta dentro de casa a milhares de quilómetros de distância e rotulá-la de “Big Sur Holy Weed”.

Para além do caso específico de Big Sur, o artigo destaca uma tendência global: a normalização do mercado legal. Os dispensários favorecem :

  • níveis mais elevados de THC
  • maior rendimento
  • os custos mais baixos

Resultado: a diversidade genética histórica é substituída por híbridos estandardizados. Muitas variedades ditas “patrimoniais” (legacy ou landrace) estão a desaparecer por falta de rentabilidade. A lógica industrial está a esmagar a memória vegetal.

Mito ou património?

No final da sua investigação, Lester Black admite que pode ser impossível provar a existência de uma “verdadeira” Erva Santa do Big Sur. Mas a questão vai para além da botânica.

Mesmo que Monk Perry nunca tenha existido, Big Sur foi um importante cadinho para a canábis moderna. Os cruzamentos feitos nestas montanhas influenciaram gerações de cultivadores, até aos bancos de sementes de Amesterdão na década de 1990.

O mito faz parte da identidade. E esta é talvez a questão central: devemos proteger a genética estável ou uma memória colectiva?

Uma lição para a Europa

Para os actores europeus da canábis legal, esta história é um aviso. Se quisermos preservar os terroirs (Marrocos, Líbano, Suíça, Itália…), temos de :

  • documentar as práticas desde já
  • estabilizar a genética
  • proteger legalmente as origens
  • associar historiadores, biólogos e cultivadores

Caso contrário, a legalização corre o risco de apagar o que a proibição paradoxalmente preservou: a diversidade clandestina. Com uma última pergunta: “O que é que queremos salvar do passado antes que ele desapareça?”

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