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Sobreviverá a extrema-direita à legalização da canábis no Chile?

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Extrema-direita no Chile e canábis
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A eleição de José Antonio Kast como Presidente do Chile confirma uma viragem assertiva para a extrema-direita. Depois de ter derrotado Jeannette Jara com 58% dos votos, o líder conservador colocou imediatamente a segurança, a imigração e a luta contra o crime no centro da sua agenda. Neste contexto, a canábis no Chile parece relegada para segundo plano, ou mesmo ameaçada, num clima político desfavorável à reforma e marcado por uma profunda ambiguidade.

Um governo virado para outras prioridades

Desde os seus primeiros dias no poder, Kast apresentou a sua administração como um “governo de emergência”, dando prioridade à ordem pública e ao controlo das fronteiras. Neste contexto, a regulamentação da canábis parece largamente ausente da agenda. Não houve anúncios concretos, reformas ou mesmo sinais positivos ou negativos sobre o futuro da legalização da canábis no Chile.

Para activistas e observadores, este silêncio é revelador. De acordo com vozes dentro do movimento chileno de canábis, a questão simplesmente não está no topo da agenda da administração. Em vez disso, o foco está em preocupações de nível macro, como o tráfico de drogas e a segurança nacional, deixando os consumidores, pacientes e pequenos produtores no escuro.

As declarações anteriores de Kast sobre a canábis revelam uma posição flutuante e por vezes contraditória. Em 2016, avisou que a legalização seria uma “catástrofe social”. Um ano mais tarde, mostrou-se aberto à canábis medicinal, desde que esta permanecesse sob estrito controlo estatal. Noutro momento, sugeriu que os adultos com mais de 23 anos deveriam gozar de liberdade de escolha pessoal.

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Em 2019, o seu tom endureceu novamente, descrevendo a canábis como uma substância que “destrói vidas, famílias e a nossa sociedade”. Para críticos como a deputada Ana María Gazmuri, esta incoerência é mais do que retórica: cria incerteza jurídica que afecta diretamente os pacientes e os consumidores. Sem um quadro coerente baseado na ciência e nos direitos humanos, a política corre o risco de ser moldada pela ideologia e não pela evidência.

Um cenário legislativo estagnado

O Chile já enfrenta desafios estruturais na sua legislação sobre a canábis. A pedra angular, a Lei 20.000, deixa um espaço significativo para interpretação, particularmente quando se trata da definição do que constitui “pequenas quantidades”. Esta ambiguidade conduziu a disparidades regionais, em que um comportamento idêntico pode ser considerado legal numa região e criminoso noutra.

Uma proposta fundamental, o Projeto de Lei 17.568-11, visa descriminalizar a posse pessoal e o autocultivo. Reintroduzido em 2025, permanece preso na comissão sem um calendário claro para o progresso. Sob um executivo e um Congresso mais conservadores, as perspectivas de avançar com tais reformas parecem limitadas.

Para activistas como Muy Paola de Santiago Verde, entrevistada por ElPlanteo, a situação reflecte uma realidade política mais ampla: os utilizadores de cannabis não eram uma prioridade durante a campanha e não estão prestes a tornar-se uma agora. O ónus de fazer avançar a questão recai, portanto, sobre a sociedade civil.

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Criminalização e contradições das políticas públicas

A atual ambiguidade jurídica tem consequências tangíveis. Consumidores e pacientes continuam a ser processados criminalmente apesar de autorizações legais parciais, particularmente para o cultivo doméstico. Este paradoxo não afecta apenas os indivíduos, mas também levanta questões mais amplas sobre a atribuição de recursos públicos.

Os críticos argumentam que visar os consumidores desvia a atenção e os fundos da luta contra o crime organizado, que é precisamente o problema que Kast está empenhado em resolver. Como explica a deputada Ana María Gazmuri, a intensificação da repressão contra os consumidores de cannabis pode acabar por comprometer os objectivos de segurança do próprio governo.

A falta de protocolos policiais claros também contribui para a estigmatização e a aplicação inconsistente da lei. Mesmo quando os indivíduos cumprem as leis existentes, não lhes é garantido um tratamento justo, o que realça o fosso entre a legislação e a prática.

Apesar de uma estagnação geral, alguns observadores vêem um pequeno vislumbre de esperança de progresso na canábis medicinal no Chile. Historicamente, os avanços progressivos resultaram frequentemente de ajustamentos regulamentares e não de reformas radicais.

Mesmo esta área enfrenta restrições sob um governo conservador. Embora Kast tenha expressado anteriormente apoio condicional ao uso terapêutico, não há indicação de que a expansão do acesso ou o desenvolvimento de infraestrutura se tornará uma prioridade a curto prazo.

O papel da sociedade civil e do ativismo

No Chile, a maioria dos avanços nos direitos relativos à canábis não resultou da iniciativa de líderes políticos, mas da pressão sustentada de organizações da sociedade civil, pacientes e grupos de defesa. É pouco provável que este padrão se altere com o atual governo.

Os activistas sublinham a necessidade de uma melhor coordenação no seio do próprio movimento da canábis. As divisões internas têm por vezes enfraquecido a sua influência. Mas o atual clima político poderia servir como uma força unificadora, encorajando a colaboração para objectivos comuns como a despenalização, regulamentos mais claros e proteção dos pacientes.

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